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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Frutos da fatalidade(conto de assombração)




 Era um sábado friorento do mês de junho, aniversário de uma de minhas irmãs, que morava numa cidadezinha do interior, há 78 quilômetros de distância da Capital onde eu morava.
Todos os anos, amigos e familiares iam para lá comemorar o seu aniversário, com direito à fogueira, churrasco, comidas típicas, quentão para esquentar o “Arraiá de Dona Sá”, no Vale do Silêncio. Detalhe: fui eu que batizei o Sítio, que minha irmã teima em chamar de “Mato”.
Justo naquele dia fui chamada para fazer hora extra na Metalúrgica onde eu trabalhava. Na carência de grana, aceitei. Trabalharia até às cinco da tarde.
Pedi para uma de minhas amigas ir comigo. Ela aceitou, mas de última hora desistiu. Logo pensei: “Depois do trabalho, passo em casa, tomo um banho bem rápido e saio antes de escurecer. Afinal, serão somente duas horas de viagem, oitenta minutos de rodovia e mais quarenta minutos de estrada de chão batido, bem ruim”.
Se chovesse, piorava. Eu não tinha medo, mas não gostava de pegar a BR à noite. Então, pensei mais um pouco: “Vou levar como companhia, o “Bingo”, meu cachorro vira-lata, mestiço de pastor alemão”.
E lá fomos nós: Ele todo ancho, porém, feliz da vida com aquela língua de fora, que mais parecia um bife à milanesa pendurado.
Coloquei para tocar no meu carro, uma fita cassete de Almir Sater e sai cantarolando.
Quando cheguei à rodovia, já havia escurecido. Mês de junho escurece cedo. Além do mais, veio a chuva e depois uma serração daquelas. Quase não enxergava nada pela frente. Sendo assim, fui cautelosa e tomei muito cuidado à minha direita. Era cada carreta que passava jogando muita água no meu humilde Uno. Eu ficava com menos visão a cada esguichada d’água.
 De repente, um barulho esquisito nas rodas. Pensei: “Aí meu Deus, essa não! Tudo menos isto. Pneu furado, não”...
Diminui a velocidade mais ainda, e fui para o acostamento bem próximo de uma curva por onde eu havia acabado de passar.
A noite era um breu só, com uma leve cortina branca de serração e chuva fina. Notei que o “Bingo” havia adormecido, mas, logo acordou todo saliente para ver o que estava  acontecendo.
Desci do carro, olhei para um lado e para outro, com uma lanterna na mão. Aqui e ali, passava uma carreta. Quase não passava carro pequeno. Eu acenava, e nada de ninguém parar para ver o que estava acontecendo. Na verdade, nunca precisei trocar pneu. Por problema de coluna, na teoria, eu sabia como fazer, mas na prática, não.
Outra vez aquele latido forte do “Bingo”, insistente numa só direção. Ele estava inquieto dentro do carro, e eu o mandando se calar, quase rogando, mas, ele não obedecia. Olhei para onde ele latia e nada enxergava.
Atenta, prestei atenção e vi um rapaz com os braços cruzados, encapuzado. Pensei sobre o porquê de ninguém parar: Ah, é por isto que o “Bingo” está latindo tanto! E chamei o rapaz.
 ─ Moço, moço me ajuda... Furou o pneu e eu não aguento trocar sozinha. Por favor! - ele não respondeu nada, nem saiu do lugar.
Caminhei na direção do rapaz, e num instante ele sumiu. Era muita coisa para pensar ao mesmo tempo. Criei coragem e fui adiante. Avistei uma cruz com uma casinha embaixo, e uma vela de sete dias acesa, queimando, quase no finalzinho. Também havia uma coroa de flores, já murchas. Tomei um susto daqueles... E o “Bingo” latindo sem parar.
Finalmente, para meu alívio, parou uma carreta atrás do meu carro, tirando-me daquele sufoco, quando ouvi uma voz:
─ Quer uma ajuda senhora?
─ Sim moço, por favor! Contei a história do rapaz, o descrevi e ele me disse:
─ Moça, em menos de uma semana atrás, houve um acidente de moto naquela curva.
─ Moço, será que é o espírito do acidentado vagando?
─ Não sei não, pois mais de um caminhoneiro o viu vagando ali. Além disso, você pode ver que aquela curva é muito perigosa, muitos já morreram ali. Olha só senhora, estou com um braço dormente, “pra bem dizer, morto”. Mas mesmo assim, dirijo porque preciso trabalhar para o sustento da família. Olha só moça, amo tanto cada um deles, que tatuei esta frase no meu braço. Agora vou lhe ensinar como se troca um pneu, veja!
Achei tudo aquilo lindo, e seguindo a instrução do motorista, tirei o estepe, o macaco hidráulico, a chave de roda... E ele só olhando e ensinado como fazer. De repente, senti um calafrio. Era uma espécie de arrepio interno. Mas, não era de prazer, era algo muito estranho...
Segui em frente com a troca do pneu. Depois, ele ajudou-me a levantar o “Robô COP”, o meu carro. Dei este apelido a ele, por ser metálico.
Com uma das mãos do motorista sobre as minhas, senti facilmente os parafusos da roda, saírem e depois apertá-los. Com o “Bingo” ainda insistindo nos latidos para o moço. Pedi desculpas a ele e agradeci pelo socorro prestado e a atenção.
Com o pneu trocado, segui em frente. Ainda faltavam alguns quilômetros para chegar ao sítio. Enfrentar aquela estrada ruim foi outro desafio e uma grande aventura. Desliguei o som e comecei a rezar bem forte, E com muita fé, continuei a viagem com o “Bingo” mais calmo.
Chegando ao meu destino, já era quase nove horas da noite. A fogueira já não tinha tantas labaredas. Todos estavam preocupados, pensando que eu nem iria mais.
Contei o que sucedeu na rodovia. Falei sobre os detalhes, do começo ao fim. Para meu assombro, ouvi uma conversa nada agradável. Não foi só de uma pessoa, mas de várias, inclusive de minha irmã.
Contaram-me que naquela curva onde furou o pneu do meu “Robô COP”, uma semana antes, aconteceu um acidente. A vítima foi um rapaz de moto, e que ontem, aconteceu outro acidente envolvendo uma carreta.
Alguns dos convidados que anteciparam a viagem, viram quando passaram por lá. O motorista morreu com um braço para fora da janela, nele havia uma tatuagem escrita:Amo minha família”.


Dora Duarte

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

No ônibus...crônica




No ônibus....
Pensa que andar de transporte urbano, o "busão" o "latão", como aqui é chamado, é fácil?! É fácil sim!
Tem suas vantagens mais do que desvantagens. Eu costumo encarar pelo lado positivo. Mercedes com motorista particular, super consciente e educado. Eu posso conhecer pessoas diferentes, ler, cantarolar baixinho, até mesmo cochilar... Olhar pela janela do ônibus, nem se fala, é um tempo para uma meditação, pensar no que você fez de bom ou ruim, invadir sua alma, Ou seja, um passatempo, quando o trânsito não colabora. Evidente que de carro também, mas o foco maior é o caos do trânsito
No ônibus acontece de tudo: a gente escuta piada engraçada, crianças com suas gracinhas, histórias interessantes dos nativos mais antigos da ilha de SC( porque falam alto)... mas, também tem muita gente pessimista, mais do que otimista.
Já imaginou o quanto rende uma má notícia, mais do que uma boa? Vamos comparar um papo bom para um papo desagradável:
" que dia maravilhoso de sol, lindo, não?!" É sim, mas tá quente!" (aqui morre o assunto) "viu as notícias nos jornais sobre a violência?!" (aí rende a viagem inteira)
Prefiro o lado bom e é sobre isto que vou falar agora:
Quando eu ainda entrava pela porta traseira... voltando cansada de um dia cheio de trabalho - na boca da noite - dentro do ônibus super lotado eu fazia questão de vir sentada mesmo que eu tivesse de esperar mais um pouco.
Um belo dia, deixei-me dominar por um cochilo tão bom que nem o "zum zum zum" me incomodava. De repente, acordei com um som de violino tocando músicas clássicas, pensei estar sonhando, mas, não, ouvi os aplausos e assovios dos passageiros lá no fundão. Estava tão cheio o "busão" que eu não conseguia olhar para trás para ver quem era o músico. Descobri que não era brasileiro, por causa do sotaque e dos agradecimentos em espanhol: "-Muchas gracias señores e señoras". Aquilo tudo era inusitado pra mim. Deixei-me embalar por aquelas lindas melodias. Já tinha visto e ouvido de tudo: pedintes trocador de santinhos, vendedor de balas para ajudar ong, mas som de violino, nunca!
Inundada por aquele momento nem me dei conta que já estava chegando ao outro terminal. Acho que o "Hermano" estava mal informado, deixou para pedir colaboração aos usuários justamente quando estava chegando. Ouvi ele dizer "la plata" e aquela gente toda descendo alvoroçada. Lamentei de não ter visto pessoalmente. Sumiu na multidão.


                                                   (Dora Duarte)

terça-feira, 19 de julho de 2016

As duas vizinhas




As duas vizinhas 


Um dos atos mais difíceis e nobres do ser humano é pedir perdão. Qualquer pessoa, seja da religião que for, deve praticar este ato... faz parte da vida espiritual e social de cada um. "Quem não perdoa atrofia a sua capacidade de amar" (Pe PR). Para conviver bem, é preciso esvaziar-se da mágoa pois ela é um veneno que em doses diárias pinga dentro do íntimo envenenando a alma causando amargas consequências. Complica mais ainda quando um trabalha dentro de si o ressentimento, a raiva, num processo demorado de compreensão, querendo viver em paz com quem provocou a discórdia! Vai, perdoa a quem lhe ofendeu e o outro numa atitude arrogante, desdenha o seu perdão. E é sobre este assunto que conto um "causo" para reflexão de um autor desconhecido. Duas vizinhas viviam em pé de guerra. Não podiam se encontrar na rua que era briga na certa. Depois de um tempo, dona Maria descobriu o verdadeiro valor da amizade e resolveu que iria fazer as pazes com dona Clotilde. Ao se encontrarem na rua, muito humildemente disse dona Maria: “-Minha querida Clotilde, já estamos nessa desavença há anos e nem me lembro mais o motivo inicial de nossas brigas. Estou propondo a você que façamos as pazes e vivamos como duas boas velhas amigas.”
Dona Clotilde na hora estranhou a atitude da velha rival, e disse que iria pensar no caso. Pelo caminho foi matutando: “-Essa dona Maria não me engana, está querendo me aprontar alguma coisa e eu não vou deixar barato. Vou mandar-lhes um presente para ver sua reação.” Chegando em casa, preparou uma bela cesta de presentes, cobrindo-a com um lindo papel, mas encheu com esterco de vaca. “-Eu adoraria ver a cara da dona Maria ao receber esse maravilhoso presente. Vamos ver se ela vai gostar dessa.” Mandou então a empregada levar o presente à casa da rival, e junto, um bilhete que dizia: "-Aceito sua proposta de paz e para selarmos nosso compromisso, envio-lhe este lindo presente". Dona Maria, estranhou o presente e pensou... “-Que será que ela está propondo com isto? Não fazermos as pazes?... Bom, deixa pra lá.”
Algum tempo depois, dona Clotilde atende a porta e recebe uma linda cesta de presentes coberta cum um belo papel. “-Haaaaa... sabia... é a vingança daquela asquerosa da Maria. Que será que ela me aprontou?”
Qual não foi a surpresa ao abrir a cesta e ver um lindo arranjo das mais belas flores que podiam existir num jardim e um cartão com a seguinte mensagem: "-Estas flores é o que lhe ofereço em prova da minha amizade. Foram cultivadas com o esterco que você me enviou e que proporcionou excelente adubo para meu jardim. Muito obrigada".
Cada um dá o que tem em abundância em sua vida". E VOCÊ AÍ, O QUE ESTÁ OFERECENDO? 



                                                                                                           Desconheço o autor

quarta-feira, 16 de março de 2016

O AMOR E A LOUCURA(LENDA)










Conta-se que certa vez, em um lugar muito distante, estavam reunidos todos os sentimentos. Então a loucura propôs que todos brincassem de pique esconde e todos concordaram, menos o medo, que tinha medo de se esconder.
A brincadeira começou, e a loucura começou a contar de zero a 100. Todos foram procurar um bom lugar para se esconder. A pressa saiu correndo e se escondeu atrás da primeira pedra que encontrou, a beleza se escondeu em um lago cristalino; o orgulho foi se esconder no meio das nuvens, pois era muito orgulhoso e queria sempre conseguir mais que os outros. A preguiça com muita calma encontrou esconderijo debaixo de uma árvore, pois ali poderia descansar. Assim todos os sentimentos foram encontrando esconderijo, a inveja, a raiva, a tristeza e todos os outros. Mas o amor ainda não havia encontrado um lugar pois todos estavam ocupados, até que viu um enorme jardim de rosas, e ali se escondeu...
Noventa e nove cem! A loucura começou a procurar, e em primeiro lugar encontrou a preguiça dormindo muito tranquila, encontrou a inveja junto com a tristeza, pois queria fazer tudo o que os outros fazem. A loucura ficou cansada e foi beber água e encontrou a beleza. E assim foi encontrando todos os sentimentos, o orgulho lá no alto entre as nuvens, o egoísmo, a raiva...
E todos os sentimentos já haviam sido encontrados, só faltava o amor! Então a loucura ficou no meio do jardim de rosas, procurou, procurou, e acabou ferindo os olhos do amor com os espinhos. A loucura pediu perdão e implorou para que o amor permitisse que ela o guiasse pelo resto da vida, e o amor aceitou. E a história nos conta que a partir desse dia o amor é cego e é guiado pela loucura... 



    (desconheço o autor )





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