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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

História de um cão



Luiz Guimarães


Eu tive um cão. Chamava-se Veludo.
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
para dizer numa palavra tudo,
foi o mais feio cão que houve no mundo.
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo,
não me queria acompanhar por nada.
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.

O meu amigo cabisbaixo, mudo,
olhava-o... O sol nas ondas se abismava...
"Adeus!" - me disse, e ao afagar Veludo
nos olhos seus o pranto borbulhava.
"Trata-o bem. Verás como rasteiro
te indicará os mais sutis perigos.
Adeus! E que este amigo verdadeiro
te console no mundo ermo de amigos."

Veludo, a custo, habituou-se à vida
que o destino de novo lhe escolhera;
sua rugosa pálpebra sentida
chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
febril, convulso, trêmulo, agitando
a sua cauda, caminhava errante,
à luz da lua - tristemente uivando.

Toussenel, Figuier e a lista imensa
dos modernos zoológicos doutores,
dizem que o cão é um animal que pensa.
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
cinco meses depois, do meu amigo,
um envelope fartamente cheio.
Era uma carta. Carta! Era um artigo,

contendo a narração miuda e exata
da travessia. Dava-me importantes
notícias do Brasil e de La Plata,
falava em rios, árvores gigantes,
gabava o steamer que o levou; dizia
que ia tentar inúmeras empresas.
Contava-me também que a bordo havia
mulheres joviais - todas francesas.

Assombrara-se muito da ligeira
moralidade que encontrou a bordo.
Citava o caso d'uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo,
em nota breve do melhor cursivo
recomendava o pobre do Veludo,
pedindo a Deus que o conservasse vivo.

Enquanto eu lia o cão, tranquilo e atento,
me contemplava, e - creia que é verdade,
vi, comovido, vi nesse momento
seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos, humildemente,
estendeu-se a meus pés silencioso
movendo a cauda, - e adormeceu contente,
farto d'um puro e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente, um dia,
vi-me livre daquele companheiro.
Para nada Veludo me servia...
Dei-o à mulher d'um velho carvoeiro.
E respirei! "Graças a Deus! Já posso",
dizia eu, "viver neste bom mundo,
sem ter que dar, diariamente, um osso
a um bicho vil, a um feio cão imundo".

Gosto dos animais, porém prefiro
a essa raça baixa e aduladora,
um alazão inglês, de sela ou tiro,
ou uma gata branca cismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia
e a negra noite amortalhava tudo
sentí que à minha porta alguem batia.
Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
farejou toda a casa satisfeito
e, de cansado, foi rolar dormindo
como uma pedra, junto do meu leito.

Praguejei furioso. Era execrável
suportar esse hóspede importuno
que me seguia como o miserável
ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
dizê-lo em alta voz e confessá-lo.
Para livrar-me desse cão leproso
havia um meio só: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos;
ao longe o mar, na solidão gemendo,
arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto,
a fremente borrasca me arrancava
dos frios ombros o revolto manto,
e a chuva meus cabelos fustigava...

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
contra as ondas coléricas vogamos.
Dava-me força o torvo pensamento.
Peguei num remo e com furor remamos.
Veludo, à proa, olhava-me choroso
como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
livrar-me, enfim, desse animal nojento.

No largo mar ergui-o nos meus braços
e arremessei-o às ondas,de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos,
lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra, entrei em casa. O vento
zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
de Veludo nas ondas moribundo.

Mas ao despir, dos ombros meus, o manto,
notei - oh grande dor! - haver perdido
uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
contra o meu coração, constantemente,
e o conservava no maior recato,
pois minha mãe me dera essa corrente,
e, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caira além, no mar profundo,
no eterno abismo que devora tudo.
E foi o cão, foi esse cão imundo
a causa do meu mal! Ah, se Veludo
duas vidas tivera, duas vidas
eu arrancara àquela besta morta
e àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.

Corrí, abri... Era Veludo! Arfava.
Estendeu-se a meus pés e docementve; minha porta.

Corrí, abri... Era Veludo! Arfava.
Estendeu-se a meus pés e docemente,
deixou cair da boca que espumava
a medalha suspensa da corrente.
Fora crível, oh Deus? Ajoelhado
junto do cão, estupefato, absorto,
palpei-lhe o corpo: estava enregelado.
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Cadê os sapos que estavam ali? O entulho aterrou! Crônica


                            
          Em dias chuvosos, quando eu passava próximo ao um imenso terreno, ouvia um coral de milhares de sapos coaxando. Evidentemente em evolução, usavam o método natural do mandamento de Jesus Cristo”Crescei-vos e multiplicai-vos” numa maternidade improvisada.
           Um certo dia ao passar por lá,  percebi um silêncio no ar, somente o barulho da chuva. Olhei e vi uma placa  enorme bem visível “Vende-se” .sete mil metros quadrados bem aterrado com entulhos de demolições, nada de terra vegetal nem vegetação, nem poças, nem sapos.
           .O bairro cresceu de uma forma acelerada numa proporção desvantajosa à natureza. Expandiu-se, sufocou-os.e a cadeia alimentar deles( os mosquitos) aumentou!
E onde há muitos insetos, é sinal de desequilíbrio natural.
        
          Quando penso nesse fato, a primeira idéia que vem à mente.Quais serão os próximos seres vivos e espécies da nossa fauna a  desaparecerem do seu habitat? Primeiros os animais e depois?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O "APARADOR DE GRAMA" (CRÔNICA)



 
      Todo mundo vai ao centro diariamente: estudantes, trabalhadores, donas de casa, criança e por ai vai. Uns vão de carros, motos, mas a grande massa popular, usa mesmo, o “latão” apelido dado aqui aos  ônibus velhos, pois novo é mais raro. Sem carro como estou  no momento, por um lado é ruim, tudo longe, o ponto de parada então...Haja pernas para dar conta de chegar até lá! Mais de um quilômetro para qualquer lado que eu me dirija.. Por outro lado, me fascina, observo, coisas que não interessam a maioria das pessoas. Faço questão de ficar do lado da janela e alterno toda vez que vou à cidade.

           Um dia desse saí, o tempo estava meio duvidoso, ameaçava sair o sol, ao mesmo tempo chuviscava e estava frio.Na estrada de areia clara, que costumo fazer o meu trajeto diário ,deparei com uns “quero-queros” tentando avançar em mim. Na hora não pensei o por quê dessa agressão, assim  sem mais nem menos. Depois encontrei um casal que me alertou, “Era por causa de um ninho deles que estava cheio de filhotes”...Então era isso! Segui em frente. Olhei como de costume a paisagem, os quintais floridos, dei de cara com um belo cavalo, morava mesmo no quintal, e ele comendo grama, percebi que ela estava toda aparadinha, parecia que tinha sido passado um cortador, mas na real, depois pensei...Esse cavalo é um cortador natural de grama!, Nada desperdiçava....Queria um desse cortador.

sábado, 3 de setembro de 2011

O rodo na era dos descátaveis

 
É inacreditável  essa história do rodo, na época que nós estamos, na maioria das vezes nada nasceu, criou-se para durar, mesmos os artigos de primeira linha, o caros, os baratos...

Quando não é descartável, nem tudo é duradouro. Eletrodomésticos,eletrônicos, carros, motos etc,tem prazo de validade, o tal “anos de vida”. Necessita de peças para reposição. Não seria diferente, como poderia manter  as dividas fábricas das peças?

No ano de 2000, exatamente no mês de agosto, Bel conheceu  Dinah tornou-se logo boas amigas, uma passou a visitar a casa da outra com freqüência, já que eram muito sozinhas, a família que tinha cada uma, final de semana debandava. Restava mesmo era a cada semana, arrumar a mochila, atravessar a cidade do leste ao sul ir passar sábado e domingo com a novata amiga.

A Bel começou a perceber o exagero de limpeza por parte da Dinah, não achou muito ruim dela se oferecer para fazer uma limpeza no banheiro, bem no primeiro dia que se conheceram, muito pelo contrário, mesmo apesar de está limpo.. A Dinah perguntou a Bel aonde havia um mercado, pois queria comprar algumas coisas, a Bel não achou necessário, já que havia quase de tudo em casa. Mesmo assim Dinah insistiu tanto que a Bel acabou ensinando à ela. Bel ficou em casa  fazendo algumas arrumações .

 Haja Dinah demorar. Bel  preocupada  correu ao portão, viu ela vindo toda carregada de sacolas, Bel deu-lhe umas broncas pelo exageros das compras. No meio daquelas compras um  RODO aparentemente comum, nada de especial, nem ele mesmo sabia  da sua durabilidade.

Passou-se anos e mais anos....Cada uma das amigas mudou-se para cidades diferentes, o rodo que ficou de “herança” para Bel, em total resistência; a água, limpeza, chuva, sol, umidade, mudanças de casas, de estado e ele firme, forte como uma rocha.

Qual seria o segredo? Até quando durará? Que nem euzinha!!!

 ...Muitos onze anos de vida!
   (Dora Duarte)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Maria fulorzinha(cumadre)

                “Maria fulorzinha”

     Era uma menina bem pequena, de cabelos lisos e de tão longos, arrastavam aos seus pés. Era uma figura horrenda, asquerosa. Ela aparecia na mata do estado, situada em João Pessoa PB.
     Contavam os antigos moradores, que essa menina, vivia assombrando todos aqueles lenhadores carvoeiros que costumavam buscar a lenha para o devido trabalho.
    Para quem conhece o “curupira”, a estória é quase semelhante.
    Diziam que Maria fulorzinha morava na mata. Contam que ela assoviava   bem fino, se uma pessoa ouvisse o assovio de longe, era porque ela estava perto e se ouvisse perto, era porque ela estava longe. Quando alguém topava com ela, assustava e entrava em pânico, pelo o poder que ela tinha de hipnotizar a vítima.Tinha os  cabelos longos, aparentava sete anos de idade,dentes horríveis, podres, os olhos esbugalhados , a voz asquerosa.  Quando exigia fumo ... Ai de quem não tivesse em mãos! Nem que fosse uma “lasquinha”, do contrário, amarrava a vítima num tronco de árvore, dava-lhe uma surra com os cabelos, até deixá-la inconsciente. No dia seguinte, era achado o corpo, niquelado, desfalecido.ou  morto, amarrado com um cipó num tronco de uma árvore. Nunca se soube, se morriam da surra, ou do medo.

  (obs: existem duas versões desta história: Uma é o nome "cumadre fulorzinha" e a outra "Maria fulorzinha", mudam alguns aspectos, porém, foi assim que eu ouvia contar na minha infância em João Pessoa, Pb
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